Economia argentina sob o ‘efeito serrote’: ações baratas, mas Bradesco BBI mantém cautela

REUTERS / Francisco Loureiro
A economia argentina segue em um ciclo de incertezas, batizado pelo mercado financeiro como “efeito serrote” (serrucho), caracterizado por breves períodos de recuperação seguidos por novas quedas. Apesar de uma recente correção ter tornado as ações do país mais atraentes em termos de preço, o Bradesco BBI mantém uma recomendação de underweight, equivalente à venda, para os papéis argentinos. A avaliação do banco reflete a ausência de catalisadores robustos para um otimismo duradouro, com sinais de fraqueza no crédito, aumento da inadimplência e riscos cambiais que, na visão dos analistas, ainda são subestimados pelos investidores.
O cenário atual levanta uma questão central: a estabilização macroeconômica que a Argentina busca conseguirá se traduzir em uma recuperação doméstica sustentável e autônoma? Os dados mais recentes, infelizmente, ainda não fornecem essa confirmação, alimentando um ambiente de cautela que permeia as decisões de investimento e a percepção geral sobre o futuro econômico do país vizinho.
Volatilidade no crédito e a confiança do consumidor
A dinâmica do crédito na Argentina é um dos pilares da análise do Bradesco BBI. Após um avanço de 3% em junho, o crescimento real do crédito voltou ao campo negativo em julho de 2026, indicando a fragilidade da recuperação. Paralelamente, a confiança do consumidor permanece em patamares baixos, próxima dos 41 pontos, refletindo a apreensão da população com a situação econômica.
Embora os salários reais venham apresentando uma melhora gradual desde março de 2026, esse aumento no poder de compra ainda não se traduziu em uma expansão mais robusta do crédito e do consumo. Essa desconexão sugere que as famílias e empresas ainda hesitam em assumir novas dívidas ou aumentar gastos, preferindo a cautela em um ambiente de incertezas.
Desafios no setor bancário e a inadimplência crescente
O quadro econômico é particularmente delicado para o setor bancário argentino. A inadimplência das famílias registrou um aumento, passando de 12,8% em junho para 12,9% em julho de 2026. Este patamar é mais que o dobro do observado no mesmo período do ano anterior, evidenciando uma deterioração significativa na capacidade de pagamento dos consumidores.
A taxa de empréstimos inadimplentes do sistema financeiro como um todo atingiu 7,7%. A maior parte dessa deterioração está concentrada nas famílias, enquanto a qualidade do crédito corporativo se mantém comparativamente mais saudável. Além disso, o BBI alerta para a queda dos índices de cobertura de provisões, o que significa que os bancos estão menos protegidos caso a qualidade do crédito das famílias continue a piorar.
A persistente busca por dólares e o risco cambial
Outro fator de preocupação é a forte tendência de dolarização da economia. Mesmo com uma relativa estabilidade do peso argentino, as famílias continuam a adquirir dólares em ritmo acelerado. Somente em julho de 2026, as pessoas físicas compraram US$ 3,1 bilhões, o maior volume mensal do ano, superando os US$ 2,1 bilhões de junho.
Nos primeiros sete meses de 2026, o volume acumulado de compras atingiu US$ 16,1 bilhões, um ritmo que, se anualizado, poderia chegar a US$ 27,6 bilhões. Embora o volume de julho possa ter sido impulsionado pelo turismo internacional relacionado à Copa do Mundo, a tendência geral aponta para uma demanda contínua por dólares, mesmo com a eleição presidencial de 2027 ainda distante. Para mais informações sobre a economia argentina, clique aqui.
O Bradesco BBI também considera o peso historicamente caro. O índice da taxa de câmbio efetiva real (REER) está próximo de 86 pontos, significativamente abaixo da média histórica de aproximadamente 113. Essa diferença sugere um potencial de desvalorização de cerca de 31% caso a moeda retorne aos seus padrões históricos. Embora a esperada aceleração das exportações agrícolas no quarto trimestre e o avanço da produção de petróleo de Vaca Muerta possam impulsionar a entrada de moeda estrangeira, a recente desaceleração na acumulação de reservas levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da trajetória cambial ao longo do ciclo eleitoral de 2027.
Cenário político e a reeleição de Milei sob análise
No âmbito político, o diagnóstico do BBI é menos negativo, mas não isento de riscos. A tese de reeleição do presidente Javier Milei ainda se mantém, embora com uma margem de erro reduzida. O índice de confiança no governo da Universidade Torcuato Di Tella (UTDT) voltou a superar a marca de 2 pontos em agosto de 2026, após uma fraqueza observada em junho e julho. Pesquisas recentes da UTDT e da AtlasIntel continuam a posicionar Milei de forma competitiva para a eleição presidencial de 2027.
Contudo, a ausência de uma recuperação mais evidente da atividade doméstica aumenta a dependência do governo em relação à continuidade da estabilização macroeconômica para manter o apoio político. Sinais de impaciência social reduzem o espaço para erros de política econômica e novas frustrações com a atividade, tornando o cenário político intrinsecamente ligado ao desempenho da economia.
Valuations atraentes, mas sem gatilhos para otimismo
Apesar de todos os desafios, a recente correção dos mercados trouxe um ponto positivo para os investidores: as avaliações (valuations) dos ativos argentinos ficaram mais atraentes. O índice MSCI Argentina negocia a 8,8 vezes o lucro projetado, um valor abaixo da média histórica de 10,4 vezes. O desconto é ainda mais notável no setor bancário, que negocia a aproximadamente 7,2 vezes o lucro, contra uma média histórica de 6,6 vezes, e perto de 1 vez o valor patrimonial, em comparação com 1,3 a 1,5 vez no início do ano.
Ainda assim, o Bradesco BBI vê pouca justificativa para uma reprecificação ampla e sustentável dos ativos neste momento. A recuperação da atividade econômica e da demanda por crédito continua sendo adiada, enquanto a inadimplência cresce e os indicadores de confiança permanecem fracos. Há também uma cautela crescente com os setores de petróleo, gás e energia. Embora o banco mantenha o otimismo com a tese estrutural de Vaca Muerta, os preços elevados do petróleo reduzem a atratividade de alguns investimentos.
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