Cantor Netinho: da ascensão no axé à militância bolsonarista e as polêmicas políticas

 Cantor Netinho: da ascensão no axé à militância bolsonarista e as polêmicas políticas

feira (13), aos 60 anos, foi apoiador declarado de Jair Bolsonaro, disputou uma vaga de deputado federal pelo PL e protagonizou embates políticos

O cenário musical brasileiro perdeu uma de suas vozes mais marcantes nesta terça-feira (13), com o falecimento do cantor Netinho, aos 60 anos, em Salvador, Bahia, após uma batalha contra o câncer. Conhecido por embalar gerações com sucessos do axé music nos anos 1990, como “Milla” e “Beijo na Boca”, o artista Ernesto de Souza Andrade Júnior também trilhou um caminho de intensa militância política, tornando-se uma figura proeminente no apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e protagonizando diversas controvérsias públicas.

A trajetória de Netinho, que se estendeu dos palcos carnavalescos às manifestações políticas, reflete um período de crescente polarização no Brasil, onde personalidades públicas passaram a usar sua influência para defender ideologias e candidaturas. Sua vida recente foi marcada não apenas pela doença, mas também pela decisão de se lançar na política eleitoral, disputando uma vaga de deputado federal, e por embates com outros artistas, culminando no cancelamento de shows devido a posicionamentos políticos.

Do auge do axé à voz da direita

Ernesto de Souza Andrade Júnior, o Netinho, alcançou o estrelato inicialmente como vocalista da Banda Beijo, antes de consolidar uma bem-sucedida carreira solo. Suas canções se tornaram hinos do verão baiano e de festas por todo o país, projetando-o como um dos grandes nomes do axé. Contudo, a partir do governo Bolsonaro (2019-2022), a prioridade de sua projeção pública começou a se deslocar da música para a política.

O cantor passou a utilizar suas redes sociais e sua popularidade para defender abertamente as pautas e o governo do então presidente. Essa guinada política o aproximou de um eleitorado conservador e o afastou de parte de seu público e de colegas de profissão, gerando debates acalorados sobre o papel dos artistas na arena política.

O “soldado de Bolsonaro” na corrida eleitoral

A identificação de Netinho com o bolsonarismo se aprofundou a ponto de ele ser visto como um potencial representante do movimento no Congresso Nacional. Em agosto de 2021, durante uma motociata de apoio a Bolsonaro em Florianópolis, Santa Catarina, a então deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) fez um convite público para que ele concorresse a uma cadeira na Câmara dos Deputados.

O convite foi prontamente aceito, e em janeiro de 2022, Netinho confirmou sua pré-candidatura a deputado federal pela Bahia. Em suas declarações, ele não hesitou em alinhar-se completamente à agenda bolsonarista. “Refleti muito e decidi aceitar o convite da amiga Carla Zambelli. Anuncio que sou pré-candidato a Deputado Federal pela Bahia. Eleito, serei um soldado de Jair Bolsonaro na Câmara e defenderei o povo baiano seguindo os valores Deus, Pátria, Família e Liberdade”, publicou em suas redes sociais, ecoando o lema que se tornou marca do movimento.

Nas eleições de 2022, Netinho concorreu pelo Partido Liberal (PL), mas, apesar de sua popularidade e do engajamento político, não conseguiu conquistar um mandato. Ele obteve 31.448 votos, um número expressivo, mas insuficiente para garantir uma vaga no parlamento federal.

Repercussões e polêmicas públicas

A militância política de Netinho não se limitou às candidaturas e declarações. Ela gerou episódios de grande repercussão e atritos. Em 2021, durante um ato pró-Bolsonaro na Avenida Paulista, o cantor interpretou seu sucesso “Milla”, o que provocou uma forte reação do compositor da música, Manno Góes. Góes expressou publicamente seu descontentamento com o uso da canção em um contexto político com o qual não se identificava, gerando um debate sobre os direitos autorais e apropriação de obras artísticas em manifestações ideológicas.

Outro momento de controvérsia ocorreu após os ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Publicações de Netinho nas redes sociais relacionadas aos eventos geraram críticas intensas e levaram ao cancelamento de um show que ele faria em Aracaju. Esse episódio ilustra a linha tênue entre a liberdade de expressão de um artista e as consequências de seus posicionamentos em um ambiente político polarizado, afetando diretamente sua carreira profissional.

A vida de Netinho, portanto, encerra-se com um legado complexo: o de um ícone da música que, na maturidade, mergulhou de cabeça na política, enfrentando os desafios e as divisões que essa escolha trouxe. Sua história é um testemunho da forma como a política se entrelaça com a cultura e a vida pública no Brasil contemporâneo.

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    Deo Martins