Júri de Elize Matsunaga: Tia e Empregada Revelam Abusos na Infância e Detalhes Pós-Crime

Matheus de Oliveira
O julgamento de Elize Matsunaga em 2016, que culminou na sua condenação pela morte e esquartejamento do marido, Marcos Matsunaga, trouxe à tona uma série de revelações sobre sua vida pregressa e os eventos que antecederam e sucederam o crime. Durante o júri popular, realizado no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, depoimentos cruciais de testemunhas indicadas pela defesa ofereceram uma perspectiva complexa da ré, desde uma infância marcada por traumas até os dias imediatamente após o assassinato. As declarações de sua tia e de uma empregada da família lançaram luz sobre aspectos pouco conhecidos da história de Elize, reconstruindo seu passado e fornecendo indícios sobre o ambiente doméstico do casal.
As Revelações do Júri Popular: Infância e Trauma
A primeira testemunha a depor, Roseli de Araújo, tia de Elize, apresentou um relato impactante sobre a juventude da sobrinha. Ela descreveu um episódio em que Elize, então com cerca de 14 anos, teria fugido de casa na cidade de Chopinzinho, interior do Paraná, após sofrer supostos abusos sexuais do padrasto. A família já nutria desconfianças sobre a situação, que foram confirmadas pela própria Elize após ser localizada em Gravataí, no Rio Grande do Sul, pelo conselho tutelar, e retornar ao convívio familiar quando a mãe iniciou um novo relacionamento.
Trajetória Profissional e Descobertas Póstumas
Após o retorno à família e a confirmação dos abusos, Elize contou com o apoio da tia e da avó, que custearam seus estudos. Ela se formou como técnica em enfermagem em Curitiba, chegando a trabalhar em um hospital da capital paranaense. Posteriormente, sua carreira a levou a atuar como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná. Além da enfermagem, Elize também era bacharel em Direito. Contudo, Roseli revelou que a família somente tomou conhecimento de que a sobrinha trabalhava como garota de programa após a repercussão do crime que a levou ao banco dos réus.
O Relacionamento com Marcos Matsunaga
Roseli de Araújo também detalhou o início do relacionamento de Elize com Marcos Matsunaga. A tia se recorda de Elize levando o empresário a Chopinzinho para apresentá-lo à família, e descreveu Marcos como uma pessoa 'educada e gentil'. O casal se casou em São Paulo, e Roseli mencionou ter participado da festa de aniversário de um ano da filha do casal, um evento que ocorreu tragicamente apenas cerca de um mês antes do assassinato de Marcos, em maio de 2012.
A Luta pela Guarda da Filha e o Afastamento Familiar
Após a prisão de Elize, Roseli assumiu a responsabilidade de cuidar da neta por dois meses, no apartamento onde Marcos e Elize viviam. Nesse período, a criança recebeu visitas dos avós paternos e do irmão de Marcos. No entanto, a tia expressou sua tristeza e frustração por ter tido acesso à neta apenas uma única vez nos quatro anos seguintes, sempre mediante agendamento e com dificuldades impostas pela família paterna. Apesar da mágoa pelo afastamento, Roseli afirmou não guardar rancor dos sogros da sobrinha, enquanto a ação judicial pela guarda da criança tramita em segredo de justiça.
O Depoimento da Empregada: Indícios e Comportamento Pós-Crime
A segunda testemunha da defesa a depor foi Neuza Gouveia da Silva, que trabalhava na residência do casal há menos de um mês quando o crime ocorreu. Neuza relatou ter presenciado ao menos duas discussões entre Elize e Marcos. Em uma dessas brigas, o empresário teria se referido ao sogro com um termo pejorativo, indicando um clima de tensão pré-existente no ambiente doméstico.
Neuza também forneceu detalhes sobre os dias imediatamente posteriores ao assassinato. Ela descreveu ter limpado o quarto onde se suspeitava que Marcos havia sido esquartejado na segunda-feira seguinte ao crime. Quanto ao comportamento de Elize, a empregada observou que a patroa chorou apenas no momento em que a polícia chegou ao apartamento. Outro hábito peculiar relatado por Neuza foi o pedido de Elize para que ela continuasse arrumando a mesa com dois pratos, mesmo quando estava sozinha, um comportamento que pode sugerir uma tentativa de manter uma normalidade aparente ou lidar com a ausência do marido.
Os testemunhos apresentados no júri de Elize Matsunaga delinearam um perfil multifacetado da ré, atravessado por experiências traumáticas na adolescência, uma ascensão profissional e um relacionamento complexo que culminou em tragédia. As revelações não apenas adicionaram camadas à compreensão do caso, mas também expuseram as profundas consequências humanas de um crime que chocou o país, especialmente no que tange ao futuro da filha do casal e ao drama familiar que se desenrolou a portas fechadas e, agora, perante a justiça.
Fonte: https://diariodopara.com.br
