Boto resgatado em Marabá: Entre o heroísmo do salvamento e os desafios do monitoramento fluvial

 Boto resgatado em Marabá: Entre o heroísmo do salvamento e os desafios do monitoramento fluvial

Na manhã desta segunda-feira, a orla do Rio Tocantins em Marabá foi palco de um evento que mobilizou equipes de resgate e a atenção da comunidade local: o salvamento de um boto ferido. O mamífero aquático, após uma complexa operação que envolveu cidadãos, bombeiros e militares, foi devolvido ao seu habitat natural pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), que garantiu o monitoramento de sua recuperação. Contudo, a ausência de um dispositivo de rastreamento no animal suscitou questionamentos sobre a real capacidade de vigilância da entidade em um ambiente tão vasto quanto o rio

O resgate heroico nas águas do tocantins

O drama teve início por volta das 9h30, quando um boto ferido foi avistado, gerando tentativas frustradas de resgate com redes de pesca. Foi então que Nayron Botelho, carinhosamente conhecido como ‘Acquaman de Marabá‘, assumiu a linha de frente. Demonstrando familiaridade com as águas do Tocantins e a interação com esses animais, Nayron optou por uma abordagem direta. Mesmo escorregando na primeira tentativa devido à pele lisa do boto, ele persistiu. Com o apoio crucial de três militares do Corpo de Bombeiros, conseguiram finalmente imobilizar o mamífero, segurando-o pelas nadadeiras, cabeça e cauda, para então acomodá-lo cuidadosamente na lancha de resgate.

Avaliação e a liberação cautelosa

Após o resgate, a equipe tentou abrigar o boto na Seção Fluvial do 52º Batalhão de Infantaria de Selva. Entretanto, o tanque disponível na unidade militar foi considerado inadequado para o porte do animal. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) avaliou as condições do boto, identificando ferimentos no corpo, provavelmente decorrentes de redes de pesca e de disputas territoriais por alimento, um comportamento natural da espécie. Como o quadro clínico não apresentava hemorragias intensas ou perfurações graves que justificassem uma internação prolongada, optou-se por liberá-lo. O mamífero foi transportado para uma praia próxima, onde a equipe aguardou sua reação antes de permitir que ele nadasse livremente, em um momento capturado por um drone da Semma, que registrou sua partida sem maiores dificuldades.

O dilema do monitoramento pós-soltura

Apesar da garantia da Semma de que o boto seria monitorado para acompanhar sua recuperação, a logística para essa vigilância gerou sérios questionamentos. Ao ser indagado sobre como o acompanhamento seria feito de forma eficaz sem a implantação de um chip de rastreamento, o coordenador de fiscalização do órgão, Mateus Rocha, ofereceu uma explicação que carecia de detalhes robustos. Ele mencionou que o ponto de soltura foi marcado via GPS e que fiscais realizariam rondas embarcadas na região, contando, futuramente, com o auxílio de um médico veterinário, um biólogo e a Fundação Zoobotânica. No entanto, o próprio Rocha admitiu que o município de Marabá não dispõe de um especialista técnico fixo para lidar com esse tipo de ocorrência, sublinhando a fragilidade da estratégia de longo prazo.

Ações preventivas e educação ambiental

Paralelamente ao incidente do boto, a Semma destacou seus esforços contínuos para mitigar acidentes similares. O órgão ambiental informou que desenvolve trabalhos de educação ambiental junto à Colônia de Pescadores Z-30, visando conscientizar sobre a pesca responsável. Além disso, as equipes de fiscalização atuam rotineiramente na apreensão de redes com malhas menores que 5 mm, consideradas ilegais e perigosas, para evitar novos incidentes que possam ferir botos e quelônios na região. Essas iniciativas são cruciais para a proteção da fauna aquática, buscando prevenir situações de resgate emergencial.

Conclusão: Reflexões sobre a conservação fluvial

O episódio do boto em Marabá, embora finalizado com a bem-sucedida soltura do animal, ilumina a complexidade dos desafios enfrentados na conservação da vida selvagem em ambientes fluviais. O heroísmo individual e a pronta resposta das equipes de resgate são inegavelmente louváveis. Contudo, a ausência de uma estrutura robusta para o monitoramento pós-soltura ressalta a necessidade premente de investimentos em tecnologia e pessoal especializado. Este evento serve como um lembrete da importância da educação ambiental, da fiscalização rigorosa e do desenvolvimento de protocolos de acompanhamento mais eficazes para garantir a sobrevivência e o bem-estar dos animais em nossos rios, assegurando que o compromisso com a proteção ambiental vá além do ato inicial de salvamento.

Fonte: https://correiodecarajas.com.br

    Deo Martins