Mercado de Glp-1 no Brasil se transforma com preços mais baixos e intensa disputa por volume nas farmácias

REUTERS / Karen Pulfer Focht
O cenário dos medicamentos análogos ao GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras” e utilizados no tratamento de diabetes e obesidade, está passando por uma significativa transformação no Brasil. Seis meses após o vencimento da patente da semaglutida, o princípio ativo desses produtos, o mercado nacional entra em uma nova fase, marcada pela queda nos preços, aumento da concorrência e uma corrida por volume nas prateleiras das farmácias, conforme análise da XP Investimentos.
Essa mudança representa um ponto de inflexão para o setor farmacêutico, que agora se volta para estratégias de comercialização e acessibilidade, em vez de focar apenas na receita gerada por produtos de alto custo. A chegada de novos players e a iminente entrada de genéricos prometem redefinir a dinâmica de vendas e o acesso a esses tratamentos.
A nova era da competição pós-patente
Com a expiração da patente da semaglutida, o mercado brasileiro viu a entrada de mais produtos GLP-1. Atualmente, apenas duas marcas de semaglutida sintética são comercializadas nas farmácias: o Ozivy, da EMS, e o Semavy, da Hypera. Após um período inicial de registro e posicionamento, a disputa agora se concentra em garantir espaço nas prateleiras e conquistar a preferência dos consumidores.
A análise da XP aponta que essa “segunda onda” de lançamentos, somada à chegada dos medicamentos genéricos, intensificará a competição. O foco das companhias migra da exclusividade para a capacidade de distribuição e as condições comerciais oferecidas, impactando diretamente os valores finais dos tratamentos para os pacientes.
Pressão nos preços e a chegada dos genéricos
A principal característica desta nova fase é a pressão sobre os preços. As exigências regulatórias estabelecem que os medicamentos genéricos sejam comercializados com um valor, no mínimo, 35% abaixo do preço do produto de referência. Essa regra deve levar os preços das canetas GLP-1 a patamares próximos de R$ 430 por unidade, tornando o tratamento mais acessível a uma parcela maior da população.
Para as farmácias, essa competição acirrada pode se traduzir em um poder de negociação maior com os laboratórios, potencialmente elevando suas margens de lucro. No entanto, a XP Investimentos ressalta que uma margem maior sobre um produto mais barato só será sustentável se houver um aumento correspondente no volume de vendas, o que exige estratégias comerciais robustas e eficientes.
Expansão dos canais de venda e o e-commerce
Além da entrada de novos fabricantes e genéricos, a expansão dos canais de venda é outro fator que impulsiona essa transformação. Medicamentos similares estão ampliando sua presença para associações, farmácias independentes e, notavelmente, para o comércio eletrônico, com plataformas como o Mercado Livre (BDR: MELI34) passando a oferecer esses produtos. Essa diversificação facilita o acesso dos consumidores, mas também intensifica a concorrência entre os varejistas.
A capilaridade do e-commerce e a possibilidade de comparação de preços online devem acelerar a queda dos valores e forçar as farmácias físicas a adaptarem suas estratégias para manter a competitividade, seja por meio de ofertas, programas de fidelidade ou serviços agregados.
O debate sobre a incorporação ao SUS
Um dos desdobramentos mais relevantes para o futuro do mercado de GLP-1 é a discussão sobre sua possível incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). O governo anunciou em 17 de setembro a intenção de oferecer as canetas emagrecedoras pela rede pública, e o Ministério da Saúde apresentou o pedido de incorporação em 24 de setembro.
A XP Investimentos avalia que, em uma primeira etapa, o impacto da incorporação ao SUS deve ser limitado, com um público atendido restrito. Contudo, o monitoramento eletrônico das prescrições no sistema público pode, paradoxalmente, favorecer as vendas pelo canal formal, ao garantir a rastreabilidade e a adequação do uso.
Existe ainda a possibilidade de um efeito positivo para as redes de farmácias caso a distribuição ocorra por meio do programa Farmácia Popular. Nesse cenário, um aumento do fluxo de pacientes nas lojas para retirada dos medicamentos abriria oportunidades para vendas adicionais de outros produtos, impulsionando o varejo farmacêutico.
No entanto, há um risco considerável: compras públicas em larga escala poderiam estabelecer preços de referência muito baixos, ampliando a pressão sobre os valores praticados no mercado privado e impactando a rentabilidade das empresas do setor. A decisão final sobre a incorporação e o modelo de distribuição será crucial para moldar o futuro desse segmento no Brasil.
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