Mercado de Seguros Automotivos no Brasil: Classe C Impulsiona Crescimento, Mas 71% da Frota Permanece Sem Cobertura

Jamille Niero
Apesar de um avanço significativo na última década, o mercado de seguros automotivos no Brasil ainda enfrenta um desafio monumental: a vasta maioria dos veículos que circulam pelo país opera sem qualquer tipo de cobertura. Um levantamento recente da Comissão de Inteligência de Mercado da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) revela que, dos aproximadamente 63,3 milhões de automóveis em circulação, apenas 18,4 milhões possuem seguro, deixando impressionantes 71% da frota desprotegida. Contudo, em meio a essa realidade de baixa penetração, uma transformação demográfica se destaca: a ascensão da Classe C como principal motor de crescimento e reconfiguração do perfil dos segurados, indicando um potencial latente e a necessidade de estratégias mais inclusivas para o setor.
A Persistente Lacuna na Cobertura Veicular Brasileira
Os dados da CNseg, que compilam informações de seguradoras responsáveis por cerca de 60% do mercado, expõem uma realidade desafiadora: mais de 44 milhões de veículos trafegam pelas ruas e estradas brasileiras sem qualquer amparo securitário. Este cenário sublinha a necessidade urgente de expandir o acesso e a conscientização sobre a importância do seguro, não apenas como proteção patrimonial individual, mas como um elemento de estabilidade e segurança para todo o sistema de tráfego nacional, mitigando riscos e oferecendo maior tranquilidade aos condutores.
Classe C Redefine o Perfil do Consumidor de Seguros
Em contraponto à baixa cobertura geral, o estudo aponta para uma notável mudança no perfil dos consumidores que efetivamente contratam seguros. A Classe C, caracterizada por famílias com renda mensal entre R$ 5,6 mil e R$ 14,1 mil, consolidou-se como o maior segmento de segurados, respondendo por 41% do total de clientes. Essa ascensão reflete a expansão econômica e o desejo de proteção por parte de um estrato populacional que anteriormente tinha menor representatividade no setor. Paralelamente, a análise etária revela que a maior parcela dos segurados (mais da metade) está concentrada na faixa entre 36 e 55 anos, grupo que geralmente detém maior poder aquisitivo, maior uso do veículo e, consequentemente, uma demanda mais frequente por segurança.
Valor dos Veículos Segurados e o Potencial de Expansão do Mercado
A concentração do seguro automotivo ainda se verifica em veículos de menor valor, com aproximadamente 46% dos automóveis segurados avaliados em até R$ 70 mil, e outros 27% na faixa de R$ 71 mil a R$ 100 mil. Alexandre Leal, diretor Técnico, de Estudos e Relações Regulatórias da CNseg, enfatiza que esses números evidenciam um vasto potencial inexplorado para o crescimento do mercado. A participação proeminente da Classe C, segundo Leal, tem sido um catalisador para o desenvolvimento de soluções mais adaptadas ao orçamento familiar, incluindo produtos personalizados, coberturas modulares e opções de contratação digital, visando democratizar o acesso ao seguro e atender à realidade financeira desse público em ascensão, que busca proteção com flexibilidade.
Concentração Regional e Destaques Geográficos
O panorama do seguro automotivo no Brasil também revela uma forte concentração geográfica na arrecadação. A região Sudeste lidera, com 58% do total nacional, seguida pelo Sul (21%), Nordeste (11%), Centro-Oeste (8%) e Norte (2%). Essa distribuição acompanha de perto a concentração da frota nacional, a renda média das famílias e o nível de urbanização das respectivas regiões, com Sudeste e Sul detendo cerca de 69% dos veículos em circulação no país. Notavelmente, o Centro-Oeste se destaca com uma participação na frota segurada (15%) proporcionalmente maior do que sua fatia na frota total de veículos do país (9%), um indicativo do perfil econômico local e da maior dependência do automóvel na região, que favorece a busca por proteção.
Crescimento Robusto na Última Década e Projeções Otimistas
Apesar dos desafios, o mercado de seguros automotivos demonstrou um vigoroso crescimento na última década. Entre 2016 e 2025, a arrecadação do setor quase dobrou, saltando de R$ 31,7 bilhões para R$ 61,6 bilhões, um incremento nominal de 94%. A Região Norte registrou o maior crescimento percentual, com um aumento de 112% nesse período. As indenizações pagas pelas seguradoras também acompanharam essa tendência, passando de R$ 21,2 bilhões para R$ 35,5 bilhões, uma alta nominal de 67%. Para 2026, a CNseg projeta um crescimento de 7,8%, impulsionado pela expectativa de aumento nas vendas de veículos, com destaque para modelos híbridos e elétricos, a contínua renovação da frota e o avanço da contratação de apólices por meios digitais, consolidando a tendência de inovação no setor.
A análise da CNseg pinta um quadro de paradoxos para o seguro automotivo brasileiro: uma vasta maioria de veículos sem proteção, mas um mercado em franca expansão e transformação. A crescente participação da Classe C, aliada ao desenvolvimento de produtos mais acessíveis e à inovação digital, aponta para um futuro onde a cobertura securitária pode se tornar mais inclusiva e abrangente. O desafio reside em converter o potencial evidenciado pelos números em uma realidade de maior segurança e tranquilidade para os milhões de motoristas que ainda rodam desprotegidos, impulsionando a cultura do seguro em todas as camadas sociais e regiões do país.
Fonte: https://www.infomoney.com.br
