Eleições 2026: Direita e esquerda traçam estratégias distintas na conquista do eleitor

Marina Verenicz
Com a proximidade do início oficial da campanha eleitoral de 2026, os principais atores políticos do Brasil já delineiam as suas estratégias de comunicação, revelando abordagens significativamente distintas entre os campos da direita e da esquerda. Enquanto um lado aposta na simplicidade e no apelo emocional para as redes sociais, o outro busca aprofundar o debate em questões econômicas e sociais, enfrentando desafios na adaptação à dinâmica digital. Essa análise foi apresentada por especialistas no programa Mapa de Risco, do InfoMoney, destacando as complexidades da disputa pelo eleitorado.
A dinâmica digital: Simplicidade versus contextualização
Renato Dolci, cientista de dados e diretor de Dados da Timelens, aponta que a principal distinção reside na forma como cada espectro político constrói sua presença online. A direita, segundo Dolci, demonstrou um domínio superior da linguagem das redes sociais, uma “coreografia do digital“. Sua estratégia se concentra em poucos, mas potentes, temas de forte engajamento, como debates culturais, morais e de identidade, com militâncias organizadas que compreendem a ocupação eficaz desses espaços.
Em contraste, a esquerda adota um caminho de maior amplitude temática, buscando abordar uma variedade significativamente maior de assuntos e recorrendo a explanações mais detalhadas. Essa abordagem, contudo, esbarra na lógica das plataformas digitais, que privilegiam conteúdos rápidos e diretos. Dolci ilustra essa disparidade com um levantamento: em 2024, a esquerda brasileira debateu 476 temas diferentes, enquanto a direita focou em apenas 68. A necessidade de contextualizar conceitos como soberania ou democracia, inerente à comunicação de esquerda, acaba cedendo espaço à simplicidade demandada pela internet, onde a constância e a repetição de mensagens são fatores-chave para a visibilidade.
Além das telas: A relevância da campanha tradicional
Apesar da crescente influência das redes sociais, o analista de política da XP, João Paulo Machado, ressalta que a campanha tradicional mantém sua importância, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil. A política local e as preocupações cotidianas do eleitor – infraestrutura, saúde, pavimentação – continuam sendo pautas fundamentais, onde a presença em rádio, televisão, visitas municipais e alianças políticas desempenham um papel decisivo. Machado observa que as grandes disputas ideológicas tendem a se concentrar no ambiente digital, enquanto o dia a dia do cidadão é mobilizado por pautas mais palpáveis e pela articulação nos territórios.![]()
A disputa pela identidade: De propostas a valores
Os especialistas apontam para uma nova dimensão na disputa eleitoral: a identidade do eleitor. A direita, nos últimos anos, fortaleceu sua base construindo um discurso anti-sistema. Curiosamente, o presidente Lula tem buscado ocupar parte desse terreno, mesmo estando no governo. Ao criticar bancos, apostas esportivas e grandes fortunas, ele tenta projetar uma imagem de enfrentamento aos poderosos, uma linguagem que, historicamente, foi mais associada ao campo conservador.
Dolci aprofunda essa perspectiva, afirmando que as campanhas eleitorais, desde 2018, transcenderam a mera disputa por programas de governo, tornando-se processos morais e culturais. O eleitor, segundo ele, não apenas escolhe propostas, mas procura um representante cujos valores e visões de mundo se alinhem aos seus próprios, alguém que tomaria decisões que ele mesmo tomaria. Essa guinada para a disputa de identidade sobre a de propostas marca uma evolução significativa na forma como as eleições são percebidas e conduzidas.
Perspectivas para 2026: Uma tendência duradoura
A avaliação consensual dos dois especialistas é que essa diferenciação na linguagem e estratégia de comunicação persistirá na campanha de 2026. A direita, provavelmente, continuará a privilegiar mensagens concisas, confrontos diretos e temas culturais de grande ressonância. Por outro lado, a esquerda enfrentará o desafio de traduzir suas pautas econômicas e sociais em narrativas que, mantendo a profundidade e contextualização que a caracterizam, sejam capazes de mobilizar o eleitor e gerar engajamento no frenético ambiente digital. O equilíbrio entre a profundidade do conteúdo e a eficácia na comunicação será crucial para ambos os lados.
Fonte: https://www.infomoney.com.br
