Acessos Portuários: O Gargalo Logístico que Pesa na Competitividade do Agronegócio Brasileiro

(Foto: Reprodução do Instagram/@abtp_oficial)
O agronegócio brasileiro, motor da economia nacional, enfrenta um persistente desafio que ameaça sua competitividade no mercado global: a ineficiência e a precariedade dos acessos portuários. Longas filas de caminhões, como a observada em fevereiro de 2026 na BR-163, rota crucial para o Porto de Miritituba (PA), tornaram-se um símbolo visível de um problema sistêmico. Este cenário, que se intensifica nos picos de safra, revela que a capacidade dos terminais portuários é minada pela infraestrutura terrestre e fluvial defasada, gerando uma cascata de custos adicionais e incertezas para produtores e transportadoras.
Custos Elevados e Prejuízos em Cascata para a Cadeia Produtiva
A ineficácia no escoamento da produção agrícola resulta em um aumento substancial dos custos em toda a cadeia logística. Quando o volume de veículos excede a capacidade de recepção dos terminais e pontos de controle, o efeito dominó é imediato: caminhões parados significam fretes mais caros, risco de perda de qualidade da carga devido ao tempo de espera, e uma pressão inflacionária sobre o preço final dos produtos. Chuvas, trechos rodoviários em más condições, acidentes ou fiscalizações rotineiras são suficientes para interromper o fluxo e agravar os congestionamentos nos acessos aos pátios portuários.
Além dos custos diretos de transporte, o impacto financeiro estende-se ao setor marítimo. Jesualdo Silva, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), destaca que a demurrage – taxa cobrada por atrasos na devolução de navios ou contêineres – pode atingir cerca de US$ 40 mil por dia, valor inevitavelmente repassado à carga. Este ônus adicional afeta diretamente a margem dos produtores e exportadores, evidenciando que 'a carga é o grande prejudicado' em um sistema logístico subdimensionado.
Infraestrutura Defasada e a Urgência da Integração Modal
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) classifica as filas não como episódios isolados, mas como um desafio crônico que demanda planejamento estratégico de longo prazo e investimentos consistentes em infraestrutura e gestão. Apesar de um recente incremento nos aportes federais, a entidade avalia que os recursos ainda são insuficientes para reverter a deterioração de trechos rodoviários críticos. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, por exemplo, revelou que 81,3% dos 13,9 mil km avaliados na região Norte foram classificados como regulares, ruins ou péssimos, impactando diretamente os corredores de escoamento para os portos do Arco Norte.
Um dos principais entraves apontados por Vander Costa, presidente da CNT, é a falha do País em integrar efetivamente seus diferentes modais de transporte. A aposta para mitigar filas e congestionamentos em períodos de pico inclui a implementação de pátios de triagem, sistemas de agendamento de cargas e condomínios logísticos próximos aos terminais. A visão é de que rodovias, ferrovias e hidrovias devem operar de forma complementar para otimizar a capacidade de escoamento. Para as hidrovias, a CNT ressalta a urgência de um plano nacional com foco em dragagem, manutenção e novos mecanismos de financiamento para vias navegáveis estratégicas.
Visão de Longo Prazo: Investimentos Inadiáveis para o Futuro do Agronegócio
Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, corrobora a tese de que o Brasil arca com custos elevados pelos seus gargalos logísticos e que o adiamento de projetos estratégicos só agravará a situação. Embora o país tenha um perfil predominantemente rodoviário, é imperativo o desenvolvimento de obras férreas e projetos em hidrovias, mesmo que representem investimentos vultosos. Glanzmann enfatiza que a infraestrutura de transporte precisa acompanhar a expansão da produção agrícola, alertando que não basta focar apenas no porto, 'se a gente não tiver o caminho' para chegar até ele. Os acessos a terminais como Miritituba servem como um lembrete contundente desse desalinhamento.
Lucas Beber, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja-MT), reitera que o escoamento é um dos principais entraves à competitividade do produtor. A percepção do setor é que, apesar do reconhecimento da relevância do problema, faltam propostas detalhadas e completas por parte dos candidatos a cargos eletivos. A ausência de soluções concretas e planos de ação robustos cria uma lacuna que impacta diretamente a capacidade do agronegócio de competir em patamar de igualdade no cenário global, exigindo uma visão e um compromisso político firmes para o futuro.
Conclusão: O Imperativo da Transformação Logística
A questão dos acessos portuários e da infraestrutura de transporte no Brasil transcende a esfera da logística, tornando-se um fator determinante para a sustentabilidade e expansão do agronegócio. Os custos adicionais impostos por ineficiências e gargalos afetam diretamente a rentabilidade dos produtores e a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. É premente a necessidade de um plano estratégico nacional que integre todos os modais de transporte, com investimentos contínuos e bem direcionados. Somente através de uma abordagem sistêmica e de longo prazo será possível transformar os desafios logísticos em oportunidades, garantindo ao Brasil a posição de potência agrícola que sua produção de riqueza merece.
Fonte: https://www.infomoney.com.br
