Jornalista Ísis Drumond critica exploração sensacionalista da cultura marajoara por influenciadores digitais

 Jornalista Ísis Drumond critica exploração sensacionalista da cultura marajoara por influenciadores digitais

Redação

A jornalista e mestra em Sociologia Política, Ísis Drumond, acendeu um debate significativo sobre a ética na criação de conteúdo digital, questionando a forma como influenciadores têm abordado símbolos culturais do Pará. Em um vídeo publicado em suas redes sociais, Drumond mirou nas publicações recentes de Lia Mendonça e MC Daniell, que transformaram a preparação do búfalo, um ícone do Marajó, em um espetáculo midiático, levantando discussões cruciais sobre respeito cultural e responsabilidade na era digital.

A distinção fundamental: Subsistência cultural versus engajamento pelo choque

Para as comunidades ribeirinhas do Marajó, a conexão com o búfalo transcende a simples obtenção de alimento, configurando-se como uma relação de profunda subsistência, respeito e simbiose cultural. O abate e o preparo do animal não são meros atos utilitários, mas ritos ancestrais que refletem a sabedoria de quem compreende intimamente a terra e a água, representando a vida em sua forma mais orgânica e autêntica. Esta é a vida acontecendo, em sua essência desprovida de artifícios.

Em contrapartida, Ísis Drumond aponta que a abordagem dos influenciadores digitais, ao expor essas práticas, revela uma estratégia calculada para gerar engajamento através do choque. Embora reconheça que o público consumidor de carne entende a origem de seu alimento, a jornalista enfatiza a diferença crucial entre o reconhecimento dessa realidade e a mercantilização de rituais culturais para fins de visualização e captação de atenção.

A perigosa descontextualização e o algoritmo das redes sociais

Drumond estabelece uma “fronteira intransponível” entre o cotidiano legítimo do território e a exposição descontextualizada de suas imagens. A jornalista argumenta que nenhum conteúdo é neutro; ele é intrinsecamente moldado por intenção, métricas de engajamento e pela incessante busca por atenção. Quando criadores abdicam sistematicamente de seus filtros e responsabilidade social, divulgando imagens de forte impacto sem o devido enquadramento cultural, evidenciam uma intenção deliberada de provocar reações extremas.

A crítica se aprofunda na percepção de que esses influenciadores, cientes dos limites do aceitável, optam por cruzá-los estrategicamente. O algoritmo das redes sociais, conforme observado por Drumond, não distingue entre admiração e repulsa, impulsionando indiscriminadamente qualquer conteúdo que gere comentários e interações. Assim, o asco e o espanto são paradoxalmente convertidos em indicadores de sucesso, priorizando a viralização sobre a ética e o respeito.

O impacto negativo na imagem do Marajó e da Amazônia

A exposição de imagens desprovidas de seu contexto cultural complexo nas plataformas digitais, sem a necessária sensibilidade, contribui para a alimentação de narrativas prejudiciais. Ísis Drumond sublinha que a Amazônia e, especificamente, o Pará, têm lutado por séculos para se desvencilhar de uma visão estereotipada que os rotula como exóticos, atrasados ou bárbaros aos olhos externos do restante do país e do mundo.

A falta de contextualização adequada dessas práticas locais reforça estigmas profundamente enraizados que persistem contra a região, e de maneira mais acentuada, contra o Marajó. A população marajoara, segundo Drumond, frequentemente suporta o peso de narrativas externas que oscilam entre a extrema miséria e um misticismo isolado, muitas vezes sendo reduzida a um palco de primitivismo. Transformar a ancestralidade e o modo de vida marajoara em um espetáculo grotesco para chocar o público é, para a jornalista, um grave desserviço à própria identidade cultural do povo e um reforço de preconceitos.

A necessidade de Ética e respeito na criação de conteúdo

Ísis Drumond conclui seu apelo reforçando a riqueza e a delicadeza técnica que caracterizam a relação do Marajó com sua natureza, e a culinária local como uma forma de arte que demanda sensibilidade no olhar de quem a compartilha. Sua crítica se insere em um debate mais amplo sobre a responsabilidade social dos influenciadores digitais, a ética do conteúdo viral e os impactos da representação midiática em comunidades tradicionais.

A mensagem da jornalista é contundente: a incessante busca por visualizações não pode atropelar a ética e o respeito pela terra e pela cultura que a constitui, destacando a importância de estabelecer limites claros entre o conhecimento informado e a exploração sensacionalista de práticas culturais. A cultura marajoara é potência e merece ser retratada com a dignidade e o cuidado que lhe são devidos.

Fonte: https://correiodecarajas.com.br

    Deo Martins