Sete em cada dez jovens atendidas pelo SUS recebem diagnóstico tardio de câncer de mama

 Sete em cada dez jovens atendidas pelo SUS recebem diagnóstico tardio de câncer de mama

Reprodução / correiodecarajas.com.br

Um levantamento recente aponta um cenário preocupante na saúde pública brasileira: a maioria das mulheres jovens diagnosticadas com câncer de mama no Sistema Único de Saúde (SUS) já se encontra em estágios avançados da doença. Os dados, que acendem um alerta para a necessidade de maior conscientização e acesso a exames, revelam que sete em cada dez pacientes entre 20 e 29 anos recebem o diagnóstico nos estágios 3 ou 4, os mais graves.

Essa proporção é significativamente superior à observada em faixas etárias mais maduras, onde o rastreamento é mais comum. O estudo, intitulado Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, foi elaborado pelo Observatório de Oncologia, uma iniciativa da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) em parceria com o Instituto Natura. Divulgado nesta quinta-feira (1º), o relatório analisa informações públicas do Ministério da Saúde, abrangendo o período de 2015 a 2025, e detalha aspectos como exames, diagnósticos, tratamentos e índices de mortalidade.

Avanço da doença em idades precoces

A análise do Observatório de Oncologia destaca que, ao considerar todas as idades, metade dos diagnósticos de 2025 ocorreu em fase avançada. Este é um patamar que se elevou durante o período da pandemia de COVID-19 e, lamentavelmente, não retornou aos níveis pré-pandemia. A mastologista Juliana Francisco, consultora médica do Instituto Natura, expressa preocupação com a situação, mas ressalta que o quadro não surpreende os profissionais de saúde. Segundo ela, os consultórios continuam a receber mulheres com tumores de grande volume ou que já apresentam comprometimento dos linfonodos da axila.

A diferença na detecção tardia é perceptível em todas as faixas etárias, diminuindo conforme a idade da paciente avança. Entre as mulheres de 30 a 39 anos, por exemplo, 62,7% foram diagnosticadas nos estágios 3 ou 4. Na faixa dos 40 aos 49 anos, o índice foi de 54,6%. Já entre as de 50 a 69 anos, que são o público-alvo do rastreamento de rotina, a proporção caiu para 47,9%.

Desafios no diagnóstico de câncer de mama em jovens

Para as mulheres mais jovens, o rastreamento de rotina, como a mamografia, geralmente não é indicado devido à menor incidência da doença nessa faixa etária. Consequentemente, os tumores são frequentemente descobertos apenas quando já manifestam sintomas. Além disso, uma parcela desses tumores em jovens apresenta um comportamento mais agressivo.

A mastologista Juliana Francisco explica que, abaixo dos 40 anos, há uma maior proporção de tumores de alto grau, como os triplo-negativos e os HER2 positivos, que tendem a crescer mais rapidamente. Outro fator complicador é a maior densidade da mama em mulheres jovens, o que pode reduzir a sensibilidade da mamografia, dificultando a identificação de lesões.

O atraso no diagnóstico também se deve à baixa suspeição, tanto por parte das pacientes quanto dos profissionais de saúde. Como o câncer de mama é incomum entre os 20 e 30 anos, é comum que nódulos sejam inicialmente considerados benignos – o que de fato ocorre na maioria dos casos – e que dores ou outras alterações sejam atribuídas ao ciclo menstrual.

O mastologista Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), observa que muitas jovens sequer têm conhecimento de que o câncer de mama é uma possibilidade em sua idade. O Índice de Conscientização sobre o Câncer de Mama corrobora essa percepção, mostrando que 86% das mulheres desconhecem que a mamografia pode ser realizada em qualquer idade, desde que haja indicação médica. Essa falta de informação pode levar uma mulher de 25 anos que encontra um nódulo a adiar a consulta, acreditando que ainda não tem idade para o exame.

Sinais de alerta e a importância da atenção

É crucial que as mulheres, independentemente da idade, estejam atentas aos sinais do corpo. Um nódulo novo e persistente, pele com aspecto de casca de laranja, retração ou inversão recente do mamilo, secreção transparente ou sanguinolenta, e um gânglio duro e persistente na axila são sintomas que exigem avaliação médica rápida em qualquer idade. É importante lembrar que a presença de um ou mais desses sinais não significa necessariamente câncer, e a ausência de casos na família não elimina a possibilidade da doença.

Rastreamento aquém do recomendado

Mesmo na faixa etária prioritária para o rastreamento, entre 50 e 69 anos, a cobertura da mamografia no SUS ainda está muito abaixo do ideal. Em 2025, a cobertura foi de apenas 22,1%. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que, no mínimo, 70% desse público seja examinado, uma meta que o Brasil nunca alcançou na série histórica analisada. Em 2015, o índice era de 26,8%, despencando para 13,6% em 2020, e a recuperação subsequente parou antes de atingir os níveis anteriores.

Esse cenário reforça a importância de campanhas de conscientização contínuas e do fortalecimento das políticas públicas de saúde para garantir que o acesso ao diagnóstico e tratamento seja ampliado para todas as idades. A detecção precoce é fundamental para aumentar as chances de cura e melhorar a qualidade de vida das pacientes.

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Fonte: correiodecarajas.com.br

    Deo Martins