A Ascensão Meteórica da Consultoria de Investimentos no Brasil: Mais de 20% de Crescimento Anual Redefine o Mercado

 A Ascensão Meteórica da Consultoria de Investimentos no Brasil: Mais de 20% de Crescimento Anual Redefine o Mercado

Marcelo Monteiro

O cenário da consultoria de valores mobiliários no Brasil atravessa um período de franca expansão, marcando uma fase de amadurecimento e diversificação para o mercado financeiro nacional. Com taxas de crescimento superiores a 20% ao ano, o segmento não apenas registra um número recorde de profissionais, mas também reflete uma transformação profunda nas expectativas dos investidores e nos modelos de remuneração praticados. Este movimento, impulsionado pela maior transparência e pela consolidação do modelo <i>fee-based</i>, sinaliza uma nova era para o acesso à orientação financeira qualificada no país.

Décadas de Evolução: Do Nicho à Projeção Nacional

Por quase três décadas, a consultoria de investimentos manteve-se como um nicho relativamente pequeno no Brasil, com um número de registros que raramente ultrapassava as mil unidades. No entanto, a partir de 2022, o setor ingressou em uma trajetória de crescimento exponencial. Os dados levantados por Francisco Amarante, superintendente da Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (ABAI), com base nos cadastros públicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), revelam que o país alcançou a marca de 2.433 consultores pessoa física em julho de 2026. Este estoque tem se expandido em uma impressionante faixa de 22% a 27% anualmente desde 2023.

A virada de chave pós-2022 é evidente na aceleração dos novos registros: foram 311 novos consultores em 2022, saltando para 391 em 2023 e atingindo 524 em 2024. O ano de 2025 estabeleceu um recorde com 663 novas entradas. A performance segue robusta em 2026, com 403 novos registros contabilizados até meados de julho, resultando em um saldo líquido positivo de 301 profissionais, mesmo após 102 cancelamentos no período. Essa dinâmica não apenas demonstra a vitalidade do setor, mas também o crescente interesse pela profissão.

Expansão Abrangente: O Crescimento Espelhado em Pessoas Jurídicas

A efervescência no segmento de consultoria não se restringe aos profissionais pessoa física. As consultorias constituídas como pessoa jurídica também exibem um avanço notável, mais do que dobrando em um período de três anos e meio. O número de registros ativos saltou de 251 em 2022 para aproximadamente 549 em julho de 2026. Esse crescimento é consolidado por saldos líquidos positivos significativos: 89 novas empresas em 2024, um recorde de 108 em 2025, e mais 51 até meados de 2026, com 88 entradas e 37 cancelamentos. Tais números ressaltam a institucionalização e a consolidação do modelo de consultoria no Brasil.

Apesar do ritmo acelerado de crescimento, o segmento ainda opera em uma escala menor quando comparado ao de assessoria de investimentos. Atualmente, existem 26.092 assessores pessoa física em funcionamento normal, contra os 2.433 consultores, uma proporção de aproximadamente 11 assessores para cada consultor. Conforme Amarante, embora a consultoria esteja em plena ascensão, ela parte de uma base de profissionais relativamente menor, indicando um vasto potencial para o futuro.

Transparência e o Modelo Fee-Based: Os Catalisadores da Mudança

A ascensão da consultoria de investimentos é intrinsecamente ligada a uma discussão mais ampla sobre os modelos de remuneração no mercado. A remuneração típica da consultoria é o <i>fee</i>, uma taxa paga diretamente pelo cliente em troca de um serviço de aconselhamento independente e individualizado. Essa modalidade se contrapõe à atuação do assessor, que funciona como preposto de intermediários, distribuindo produtos de instituições financeiras às quais está vinculado, e geralmente é remunerado por comissões atreladas à venda de produtos.

A Resolução CVM 179 foi um marco fundamental, ao colocar a transparência sobre a remuneração no centro da relação entre investidores e profissionais. Segundo Francisco Amarante, esta clareza impulsionou a demanda por diferentes formas de atendimento, favorecendo modelos como o <i>fee-based</i>. Ele enfatiza que, além de serem fatores relevantes, a transparência e o avanço do modelo de taxa direta são parte de uma transformação maior: o amadurecimento do mercado brasileiro e a diversificação das interações entre investidores e especialistas.

Novos Perfis de Investidores e a Hipótese de Migração Profissional

O crescimento do mercado de capitais brasileiro e a crescente sofisticação dos investidores são fatores cruciais que alimentam a demanda por modelos de relacionamento e remuneração mais diversos. A proposta regulatória e comercial da consultoria, com sua independência e foco no aconselhamento individualizado, atrai um perfil de investidor que busca alinhamento de interesses e uma visão mais personalizada.

Adicionalmente, o comportamento observado no mercado é compatível com a hipótese de que parte dos profissionais esteja migrando entre os modelos de assessoria e consultoria, especialmente em face do avanço do <i>fee-based</i> e das novas oportunidades de atuação. Embora os dados públicos não permitam comprovar migrações individuais, a tendência é forte. Amarante ressalta que o crescimento da consultoria não precisa se dar em detrimento da assessoria; ao contrário, há espaço para o desenvolvimento de ambos os modelos e de outras abordagens que ampliem o acesso do investidor brasileiro a uma orientação financeira qualificada e adequada às suas necessidades.

Conclusão: Um Futuro Diversificado para o Mercado de Investimentos

A expansão notável da consultoria de investimentos no Brasil, tanto em número de profissionais quanto de empresas, é um dos movimentos mais significativos do mercado financeiro atual. Este fenômeno é um reflexo direto da maior transparência, da crescente preferência por modelos de remuneração diretos e do amadurecimento dos investidores brasileiros. Longe de ser um jogo de soma zero, o crescimento do setor de consultoria complementa e enriquece o ecossistema de serviços de investimentos, oferecendo mais opções e flexibilidade aos que buscam uma gestão financeira estratégica. A tendência aponta para um futuro onde a diversidade de modelos e a qualificação profissional serão pilares para um mercado de capitais cada vez mais robusto e acessível.

Fonte: https://www.infomoney.com.br

    Deo Martins