Terremoto na Venezuela: A ciência explica por que Belém sentiu o forte tremor

Cintia Magno
Moradores de Belém foram surpreendidos por um abalo sísmico na noite de quarta-feira (24), desencadeando evacuações preventivas em alguns edifícios da capital paraense. O fenômeno, que felizmente não causou feridos ou danos estruturais na cidade, gerou uma questão intrigante: como um terremoto tão distante, com epicentro na Venezuela, pôde ser percebido a centenas de quilômetros de distância? Para desvendar esse mistério, recorremos à expertise da professora Ellen de Nazaré Souza Gomes, da Faculdade de Geofísica da Universidade Federal do Pará (UFPA), que detalha as complexidades geológicas por trás desse evento.
A dinâmica sísmica na Venezuela: Causas e consequências imediatas
O epicentro do tremor localizou-se na região entre Morón, Montalbán e Yumaré, na Venezuela, e sua origem reside na constante interação entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana. Segundo a especialista da UFPA, a tensão acumulada na crosta terrestre nessa área é a principal força motriz para terremotos de grande magnitude. Um aspecto notável desse evento foi a ocorrência de um “doublet sísmico”, caracterizado por dois fortes abalos em um curto intervalo de tempo e espaço, o que pode agravar os danos em estruturas já fragilizadas. Com magnitudes estimadas entre 7,2 e 7,5 e uma profundidade relativamente rasa, entre 10 e 13 quilômetros, este foi um dos tremores mais intensos registrados na história recente da Venezuela, provocando desabamentos, danos à infraestrutura e interrupções de serviços essenciais no norte do país, além de ser sentido em Caracas, diversos estados venezuelanos, Colômbia e ilhas do Caribe.![]()
A viagem das ondas sísmicas: Entendendo a propagação a longa distância
A percepção do tremor em locais tão distantes quanto Belém é uma consequência direta da vasta quantidade de energia liberada por um terremoto de alta magnitude. Essa energia se propaga pela Terra na forma de ondas sísmicas, que podem viajar por centenas, ou até milhares, de quilômetros a partir do epicentro. Embora a intensidade dessas ondas diminua progressivamente com a distância, a magnitude original do evento foi suficiente para que parte dessa energia remanescente fosse detectável em áreas remotas. A professora Ellen Gomes reforça que, apesar da capacidade de propagação, os efeitos mais destrutivos e severos de um sismo se concentram tipicamente nas proximidades da ruptura da falha geológica, especialmente quando o evento ocorre em profundidades menores.
Belém e a percepção remota do abalo
Em Belém, a experiência do terremoto venezuelano se manifestou de forma distinta das áreas mais afetadas. Moradores de diversos bairros da capital paraense relataram ter sentido uma vibração leve, oscilações em edificações ou o balanço de objetos, em vez de um abalo violento. Essa percepção é compatível com a atenuação da energia sísmica ao longo da grande distância percorrida. A professora explica que, mesmo perdendo intensidade, parte dessa energia residual é suficiente para ser percebida. A forma como as ondas sísmicas interagem com as características geológicas locais de Belém e os tipos de construção existentes também influenciam diretamente a maneira como o fenômeno é percebido, explicando a ausência de danos estruturais na cidade.
Fatores individuais e geológicos na percepção do tremor
É comum que nem todas as pessoas em uma mesma localidade percebam um tremor sísmico da mesma forma. A especialista da UFPA elucida que a detecção do abalo depende tanto da intensidade das ondas sísmicas residuais quanto das condições específicas de cada indivíduo e ambiente. Pessoas em andares superiores de edifícios, em estado de repouso ou em ambientes silenciosos, são mais propensas a notar pequenas oscilações. Em contraste, aqueles que estavam em movimento, dirigindo ou em locais ruidosos podem não ter percebido qualquer vibração. Além disso, o tipo de solo desempenha um papel crucial: terrenos mais macios podem amplificar as vibrações, criando diferenças de percepção até mesmo entre vizinhos de rua.
Alerta para o futuro: A possibilidade de réplicas
Após um terremoto de grande magnitude como o da Venezuela, é natural que ocorram réplicas, ou tremores secundários, nos dias seguintes. Estes são abalos sísmicos menores que sucedem o principal, resultantes do reajuste das placas tectônicas após a liberação inicial de energia. Acompanhar as informações dos órgãos de monitoramento sísmico é fundamental para estar ciente de qualquer desenvolvimento adicional.
O episódio do terremoto venezuelano sentido em Belém ilustra a interconexão geológica do nosso planeta e a capacidade de eventos sísmicos de grande porte impactarem regiões distantes. Graças à explicação científica da Professora Ellen Gomes, compreendemos que a percepção do tremor na capital paraense, sem danos, é um reflexo esperado da propagação de ondas sísmicas poderosas. A vigilância e o conhecimento técnico são ferramentas essenciais para a compreensão e segurança diante dos fenômenos naturais.
Fonte: https://diariodopara.com.br
