O trabalho e a resistência de um grupo de indígenas no interior do Pará garantiu que ninguém se infectasse com a Covid-19. Foram seis meses de isolamento absoluto na aldeia Tekohaw, que fica na Terra Indígena Alto Rio Guamá e onde vivem cerca de 450 indígenas. A terra, que também abriga as aldeias Cajueiro e Canindé, fica no sudeste do estado, distante 170 km de Paragominas, município que já registrou quase 3 mil casos confirmados da doença e 94 pessoas morreram infectadas pelo novo coronavírus.
As aldeias são lar para mais de 3 mil indígenas da etnia Tembé Tenetehara. Nenhuma morte entre esse povo foi registrada durante a pandemia. Mas eles cobram medidas mais efetiva de combate à doença pelo governo federal, mais especificamente pela Fundação Nacional do Índio (Funai).
Para garantir que o local continuasse intocável, o cacique Sérgio Muty Tembé suspendeu as saídas da terra.
Desde início da pandemia ficamos preocupados porque é uma doença que mata e não tem cura. Então, a gente fez uma quarentena nas aldeias, mais de 5 meses em quarentena. A gente não saiu para cidade e nem para outras aldeias“, explicou.
Dentro das aldeias, o cenário era de normalidade. Muito diferente do que acostumou-se a ver, distanciamento e máscaras não eram vistos como itens necessários. Os equipamentos de proteção estavam lá, disponíveis. Mas a certeza de que o vírus não passava pelo bloqueio do isolamento deu segurança ao povo.
A única entrada permitida era a de técnicos da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. “A gente lutou muito contra isso, que não veio a acontecer nenhum caso com esse vírus dentro da nossa aldeia. A gente teve palestra com as técnicas, formamos também um grupo de conselheiras para a gente ir aconselhar as famílias e a gente andou família por família“, contou Sandra Tembé, liderança feminina da tribo.
De acordo com o cacique, os três primeiros meses foram os mais rígidos. “A Sesai ajudou, mandou técnicos treinados e ele também ficavam em quarentena para que o vírus não chegasse perto dos indígenas. Depois dos três meses mais fechados, se alguma pessoa saísse ficava de quarentena antes de entrar na aldeia. Fizemos vários protocolos para manter a vigilância“, relatou Sergio Tembé.
A equipe de reportagem entrou em contato com a Sesai sobre os protocolos seguidos, mas não havia obtido retorno até a última atualização desta reportagem.
Os portões da Terra Indígena ficaram fechados e eram vigiados desde março, quando os números de infecção pelo novo vírus começaram a se espalhar pelo Brasil. As poucas saídas registradas foram controladas e em casos muito necessários, segundo a liderança indígena.
Para celebrar a saúde da aldeia, o povo Tembé Tenetehara realizou um ritual de agradecimento. Guerreiros, mulheres e anciões se reuniram, fizeram pinturas, usaram cocares e as peças tradicionais para agradecer aos espíritos e deuses pela saúde e por não terem perdido membros para o novo coronavírus.
Uso da medicina tradicional No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, foram confirmados mais de 25 mil casos da Covid-19 entre comunidades indígenas. Até o boletim do dia 14 de setembro, foram 418 mortes de membros desses povos tradicionais.
Mortes de indígenas idosos por Covid-19 colocam em risco línguas e festas tradicionais que não podem ser resgatadas
No dia 1º de abril, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) confirmou o primeiro caso de indígena com Covid-19 no Brasil. Desde então, a doença tem avançado pelos territórios fazendo com que lideranças morressem, junto com as línguas faladas e a herança história dos povos.
Agentes da Sesai iniciaram monitoramento e acompanhamento dos casos nas aldeias, mas apesar dos cuidados, os indígenas confessam que sentem falta do apoio dos órgãos do governo.
“A Funai durante essa pandemia, eu falo francamente, dentro da aldeia ela não veio nenhuma vez para orientar a população indígena sobre essa Covid. E outra, é pra ajudar porque tá difícil. Eu tenho 50 anos, eu vejo, antes ajudavam, de uns tempos pra cá a Funai não ajuda mais“, reclama o pajé.
Em nota, a disse que “vem trabalhando para garantir a segurança alimentar das comunidades indígenas durante a pandemia de Covid-19” e que “por meio da Coordenação Técnica Local em Belém, já entregou, com o auxílio do Exército, cerca de 2,1 mil cestas básicas e 1,2 mil kits de higiene a indígenas da etnia Tembé no Pará, medida que contribui para que eles permaneçam nas aldeias e evitam o risco de contágio pelo novo coronavírus“.
A Funai disse que “somente na região do Gurupi, em Paragominas, foram distribuídas quase 900 cestas básicas e mais de 600 kits de higiene e limpeza”.
A nota afirma, também, que “em março a Funai já havia suspendido as autorizações de entrada em terras indígenas de todo o país como forma de evitar a disseminação do vírus, uma vez que as populações indígenas se encontram no grupo de risco de contaminação“. Segundo a nota, a regra não vale para serviços essenciais, como atendimento de saúde e entrega de gêneros alimentícios.
Veja imagens do povo Tembé Tenetehara da Aldeia Tekohaw:
Fonte G1 – Fotos: Especial/Raimundo Paccó