Uma forte tempestade em Manaus inundou neste sábado (25) as covas destinadas às vítimas da Covid-19, alagou avenidas e provocou desabamentos. Segundo a Secretaria da Saúde do Amazonas, o período de chuvas ajuda na propagação do vírus.
De acordo com relatos de agentes funerários à equipe de reportagem, no cemitério municipal Nossa Senhora Aparecida, o maior da cidade, será preciso abrir novas covas para o sepultamento de mortos pela coronavírus, em substituição às covas inundadas. Desde terça-feira (21), a prefeitura passou a enterrar também em valas comuns.
Os jornalistas foram barrados de entrar no cemitério neste sábado. O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), restringiu o acesso da imprensa ao cemitério após reportagem da Folha mostrar aglomeração de familiares e coveiros sem EPI (equipamentos de proteção individual) em enterros de vítimas da Covid-19, contrariando orientação do Ministério da Saúde.
Além dos danos no cemitério, a chuva provocou a queda do muro do 1º Batalhão de Infantaria de Selva, do Exército, transformou em rios diversas avenidas e alagou o chão das enfermarias do hospital da Criança, do governo estadual. Não há relato de feridos ou mortos por causa da tempestade.
Segundo o Inmetro (Instituto Nacional de Meteorologia), choveu 17,2 mm em Manaus neste sábado, até as 13h. O volume equivale a 10,6% da média histórica de abril.
Na avaliação da Secretaria da Saúde do Amazonas, o período de chuvas no estado, entre dezembro e maio, ajuda na propagação de síndromes respiratórias agudas graves, incluindo a Covid-19. O estado tem a maior incidência do novo coronavírus do país.
Restrição à imprensa Na terça-feira (21), a prefeitura de Manaus proibiu a entrada de jornalistas nos cemitérios municipais alegando “consecutivos conflitos entre familiares e a imprensa“. No mesmo dia, passou a enterrar mortos pela Covid-19 numa vala comum.
As primeiras imagens dos enterros coletivos, que rodaram o mundo, foram feitas pelos próprios familiares. Alguns fotógrafos furaram o bloqueio, e outros usaram drones.
Na quinta-feira (23), após negociação com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas, a prefeitura limitou a presença da imprensa das 9h às 11h da manhã, de segunda a sexta-feira. Além disso, apenas cinegrafistas e fotógrafos têm permissão para entrar no cemitério Nossa Senhora Aparecida.
Em novo comunicado, a prefeitura comandada por Virgílio Neto disse que a decisão foi “pautada na ética e no jornalismo cívico, voltado ao interesse do cidadão” e voltou a dizer que o motivo da restrição ocorreu “por conta de conflitos registrados entre os profissionais e os familiares“.
Em São Paulo, cidade com mais registro de óbitos por Covid-19 no país, a imprensa, inclusive repórteres, pode entrar nos cemitérios públicos mediante autorização prévia, sem restrição de dias e
horários. No Rio de Janeiro, a segunda cidade com mais mortes pelo novo coronavírus no país, não há restrições para o trabalho da imprensa nos cemitérios públicos.
Até este sábado (25), Manaus registrou 233 mortos pelo novo coronavírus. O colapso no sistema de saúde, no entanto, aumentou o número de óbitos por outras causas.
Na terça-feira, quando as valas comuns passaram a ser usadas, houve 136 sepultamentos em Manaus. No ano passado, a média foi de 28 enterros por dia na cidade.
Menos entrevistas Neste sábado (25), o governo estadual, do governador Wilson Lima (PSC), informou que deixará de fazer entrevista coletivas on-line diárias sobre a epidemia, que passarão a ocorrer apenas uma vez na semana.
A medida se fez necessária em razão da exigência cada vez maior da presença dos agentes de saúde do estado na atuação in loco de combate a proliferação do novo coronavírus“, diz a nota do governo.
Folhapress