Foto: Bruno Santos – Folhapress

Os índios kayapós estão sendo duramente atingidos pela Covid-19, que já matou jovens e idosos nas aldeias. A mais nova vítima é o cacique Paulinho Paiakã, de 65 anos, que faleceu à noite de ontem. Ele estava internado no Hospital Regional do Araguaia, em Redenção, mas seu estado de saúde piorou desde o começo da semana.
Paulinho Paiakã Benkaroty Kayapó, ou simplesmente Paulinho Paiakã, foi figura conhecida em todo o mundo, seja pela defesa das causas ambientais, contra a invasão e devastação das terras indígenas, seja pela acusação e condenação no caso de estupro contra a professora de uma filha dele.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sespa), Payakã apresentava o quadro de insuficiência respiratória e resultado positivo para o novo coronavírus. O coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) na região Kayapó, Lázaro Marinho, informou que o órgão está prestando toda a assistência necessária à família do cacique.
O Dsei está dando apoio à família. Nos termos da Covid, ele deveria ser enterrado imediatamente, mas entendendo que ele é uma liderança Kayapó, nós articulamos com a família que ele fosse enterrado na aldeia Ulkré, que é a aldeia de origem dele”, disse Marinho.
O coordenador informou que a família assinou um termo se comprometendo que não haverá o manuseio do corpo. “Dentro da cultura Kayapó, quando há um enterro, um funeral, há o manuseio do corpo e existe um ritual de pinturas. Então, estes rituais não poderão ser feitos, entendendo que a Covid é altamente contagiosa”, resumiu.
Em contato com lideranças kayapó, a equipe de reportagem soube que o cacique não andava bem de saúde havia 15 dias, quando foi levado ao hospital municipal de Redenção, já com o quadro de infecção pela Covid-19. De lá, ele foi transferido para o Hospital Regional, onde morreu.
Caso policial e lutas
Paiakã era uma das principais lideranças indígenas do país e ganhou fama mundial por seu destacado protagonismo na luta indígena do Brasil na década de 1980 e também por ser acusado de ter cometido um estupro, em 1992, na cidade de Redenção, contra Sílvia Letícia da Luz Ferreira, que dava aula aos indígenas.
Em 1998, o então juiz Elder Lisboa, já falecido, condenou o líder indígena a seis anos de prisão por estupro. A sentença foi confirmada pelo Tribunal de Justiça do Pará, mas ele não chegou a cumprir a pena, já que após a condenação se mudou para a aldeia Aukre, a 280 km de Redenção.
Payakan foi a única pessoa no Brasil condenada, com residência conhecida, sentença transitada em julgado, com decreto de prisão expedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que não cumpriu pena em regime fechado, pois a polícia não tinha permissão para entrar na aldeia. Nem coragem, porque os kayapós são guerreiros fortes e destemidos e não aceitariam a prisão de seu líder.
Ao lado do cacique Raoni Metuktire, o líder kayapó realizou diversos protestos contra o avanço da hidrelétrica de Belo Monte naquele período. Também foi uma das principais lideranças do Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em 1989.
A guerreira Irekrã, esposa de Paiakã, acusada de ter agredido Letícia para facilitar a ação do marido, também foi condenada a quatro anos de detenção em regime semiaberto.
Fonte: Ver-o-fato