José Francisco abandonou o casebre onde morava ontem mesmo/ Fotos: Josseli Carvalho

A noite de terça-feira em Marabá foi marcada por um crime simplesmente inimaginável: um pistoleiro deu um tiro em um bebê de apenas um ano de idade. Ele tinha intenção de matar o padrasto da criança, mas como a pequena vítima estava nos braços do alvo, acabou baleada, também. O quadro clínico do homem é considerado grave, já a criança morreu no hospital por volta das 18 horas.
A tragédia se registrou na Folha 25, área de ocupação urbana da Nova Marabá, e é possível que esse caso tenha ligação com um homicídio ocorrido perto dali, na Folha 23, poucas horas antes. E este homicídio também teria ligação com outra morte ocorrida no final do ano passado. E todos os casos estariam relacionados a tráfico de drogas. Ou seja: uma sucessão de atos violentos que acabaram vitimando um bebê inocente.
O primeiro tiroteio se registrou por volta das 18h30, quando criminosos armados atacaram dois homens que estavam em uma área de mata conhecida como “Fazendinha”, na Folha 23. Ali foi assassinado Rodrigo Luz Pereira, de 24 anos, enquanto o amigo dele, Cledson Alício Freitas, o “Bebezão”, foi baleado e socorrido pela polícia que chegou rapidamente ao local. Ali, a Polícia encontrou 10 petecas de crack e uma balança de precisão, o que leva a polícia a crer que o tiroteio tem ligação com o tráfico de drogas.

Rodrigo foi assassinado cerca de quatro horas antes do baleamento do bebê / Foto: Divulgação

Enquanto a polícia ainda estava nas ruas procurando pistas dos pistoleiros, perto dali, Aílton Nascimento Lopes, conhecido como “Faísca”, foi baleado com quatro tiros e junto com ele seu enteado, de apenas um ano de idade também levou um balaço.
Na manhã de ontem (11), o delegado Vinícius Cardoso, diretor da 21ª Seccional Urbana de Polícia Civil, disse que a polícia não descarta nenhuma linha de investigação por enquanto, mas observou que ainda é prematuro afirmar que os dois casos têm relação.
Porém uma pessoa, que seria o pivô de toda a tragédia, afirma que tudo está interligado. Trata-se de José Francisco Ribeiro, dono da casa onde a criança foi baleada. Aliás, ele é tio da criança.
José contou para a reportagem que o alvo dos criminosos, na verdade, era ele. Por isso já decidiu que vai embora de Marabá imediatamente. “Se eu ficar aqui eu vou morrer”, relatou com todas as letras.
José conversou com a equipe de reportagem enquanto arrumava as malas. Ele contou que era por volta das 23h quando quatro pistoleiros chegaram a pé na casa dele. Ao perceber a movimentação, desligou a luz e se trancou no quarto do casebre. Foi nessa hora que Aílton, o “Faísca”, chegou para lhe visitar, com o enteado no colo.
Ainda segundo José Francisco, os bandidos mandaram “Faísca” se deitar no chão e tentaram tirar o menino das mãos dele, mas não conseguiam. Nessa hora um dos homicidas deu o primeiro tiro e em seguida desferiu mais quatro. “Faísca” ainda implorou para não ser morto, mas os homens estavam decididos. “Não consideraram não, largaram fogo”, relata José Francisco, que acompanhou tudo de dentro do quarto junto com sua mulher e mais quatro crianças, todos morrendo de medo.
Crimes interligados
Perguntado sobre por que ele acha que era o alvo dos criminosos, José Francisco explicou que toda confusão começou ainda no final do ano passado, quando um filho dele, Mateus da Silva Ribeiro, de apenas 15 anos de idade, foi assassinado a pedradas na cabeça por traficantes na praça da rotatória da Folha 16.
O tempo passou e surgiu a conversa de que o indivíduo Rodrigo Pereira teria envolvimento nessa morte. E justamente na terça-feira, pistoleiros mataram Rodrigo a tiros e deixaram o parceiro dele, “Bebezão”, baleado.
José Francisco acredita que os parceiros de Rodrigo pensaram que foi ele quem mandou matar Rodrigo e foram até a casa dele, José, para se vingar. Mas chegando lá quem apareceu foi Aílton, o “Faísca”, que nada tinha a ver com a história e acabou baleado junto com seu enteado de apenas um ano. “Eles acharam que foi eu, aí vieram aqui pra me matar também”, reafirma.
Mas José Francisco nega que tenha qualquer envolvimento na morte de Rodrigo. “Eu não tenho nada a ver com homicídio de ninguém”, assegura, acrescentando que vive há 20 anos em Marabá e agora vai ter que ir embora o quanto antes. Aliás, ontem mesmo ele abandonou o barraco.

Sangue e chinelos no local onde os bandidos atiraram em uma inocente criança e no padrasto dela

Estado grave
No final da tarde de ontem, a equipe de reportagem recebeu a informação oficial da Assessoria de Comunicação da Prefeitura de que no Hospital Municipal de Marabá os dois baleados (padrasto e enteado) foram submetidos a cirurgia para retirada da bala e fragmentos.
O estado de saúde de ambos é grave e eles se encontram na UCE – Unidade de Cuidados Especiais. O quadro permanece sem alteração até este momento”, dizia trecho da nota oficial. Porém o bebê não resistiu e morreu no final da tarde. Por outro lado, vizinhos que ajudaram a socorrer as vítimas até a achegada de uma ambulância do SAMU disseram que o tiro atingiu o abdômen do bebê, que ficou com as vísceras expostas.                                                                                                               Chagas Filho e Josseli Carvalho – Correio de Carajás